DENSIDADE ALGO MISTERIOSA E FUGIDIA

Toda época declara que a sua é a pior crise da história humana. A julgar pelos rumos tomados pela arte, no nosso caso talvez isso não seja exagero. Sabemos que, entre outras funções, ela possui a de espelho simbólico, quer da personalidade do artista, individualmente, quer do entorno em que é produzida. Traduz uma visão do mundo, Weltanschauung, e um espírito do tempo, Zeitgeist (foram os alemães que formataram os dois conceitos). Pois bem. Contou-me um amigo que na atual Bienal de São Paulo uma das obras contém uma turbina de avião a jato ligada. Minha convicção é de que o objetivo é mesmo incomodar o espectador, afastá-lo, puni-lo por estar ali – e não gratificá-lo. Aliás, o ruído torna quase impossível ver qualquer outra obra, no mesmo prédio.

Sem ter estado alheio a nenhuma crise - inclusive suas crises interiores de indivíduo super-sensível , de personalidade complexa, até instável - , Ubirajara Ribeiro respondeu a nosso tempo com o comportamento oposto. Sua arte nunca fez questão de incomodar. Pelo contrário, é modelar pela contenção lírica com que se manifesta, chegando quase ao silêncio. Nesse ponto, foi sempre de uma coerência absoluta. Já na década de 1980, Walter Zanini, em sua volumosa História da Arte no Brasil, se referia a sua “produção tranqüila e refinada, de predominância gráfica”. Tendo-se dedicado bastante à aquarela -- linguagem por excelência do intimismo - mas não só através dela -, Ubirajara criou uma arte de sutilezas que consegue ser ao mesmo tempo extremamente sedutora (pela beleza imediata) e exigente (pela ausência de concessões).

Tenho podido observar, com alguma inquietação, que o que se elogia, hoje, numa obra, são certas características diante das quais há um sinal negativo. Elogia-se o que em outros tempos não seriam qualidades. Nenhuma obra é boa porque constrói algo, e sim porque desconstrói, não porque propõe soluções, e sim porque problematiza; não pelo que consegue dizer, mas sim pelo que não diz, se não pelo reconhecimento de sua impotência; e assim por diante. Não obstante, ainda que nossa época seja de perplexidades e falta de soluções, acredito que a obra não pode entrar, ela mesma, num impasse. Para traduzir a crise, tem de ser capaz de transmutá-la em forma significante. A beleza é o que resulta dessa forma e de sua interação com o ser humano ao contemplá-la. Vem a ser uma emoção irredutível a qualquer outra, específica da arte, positiva e parenta da alegria. Contemplar a obra de Ubirajara estará sempre nos domínios do prazer e nos proporcionará sempre esse tipo de beleza.

Nem por isso é uma obra não-inquisitiva. Ubirajara tinha um temperamento de inventor e pensava sobre e com a arte. Sua beleza (e aqui lhes peço permissão para me citar a mim mesmo, num texto escrito há uns três ou quatro anos para esta mesma galeria) “faz parte de um projeto especulativo e inteligente, de quem entende a arte como cosa mentale, como na definição de Leonardo da Vinci, e não como mero exorcismo da subjetividade”. Alguns trabalhos (em especial aquarelas) parecem possuir a leveza e rapidez de uma anotação, como se não resultassem, sequer, de nenhum esforço. Outros deixam transparecer certa inquietação, certa angústia. Mas mesmo nos primeiros, podemos ter certeza, a aparente espontaneidade resulta do saber fazer e o esconde, nasce do grande domínio técnico que o artista possuía em todos os segmentos que abordou: pintura, gravura, colagem, objetos. Lembro-me aqui de uma reposta dada pelo jovem Mozart quando um dia lhe apontaram sua facilidade estupenda: “É, mas só eu sei o quanto me deu de trabalho, antes”. E o grande Marcello Grassmann – cujo virtuosismo impressiona a todos – também me disse algo da mesma natureza: “Nunca tive facilidade para o desenho. Tive paixão, o que é muito diferente”.

Não tive com Ubirajara Ribeiro grande intimidade e não sei o que ele diria a respeito, ou sobre assuntos semelhantes. Mas com base apenas na observação das obras acredito que sua tranqüilidade, seu refinamento, a contenção lírica , o quase ao silêncio, são uma conquista penosa, per aspera ad astra. Pressinto também que a arte tinha, para ele, como para outros criadores da mesma estirpe, uma espécie de função homeostática, permitindo-lhes permanecerem vivos no universo; sem essa válvula de escape, talvez eles pirassem. Ubirajara se equilibrava sobre um mar subterrâneo, sobre um vulcão não muito adormecido. A eles sua produção deve essa densidade algo misteriosa e fugidia que a singulariza, comparada à dos demais líricos da mesma natureza e geração.

Olívio Tavares de Araújo, novembro de 2004