Rodrigo de Haro

Paris, 1939
Pintor, desenhista, gravador,
poeta, escritor

Principais Individuais
1966 Pinturas, MAM, Florianópolis
1968 Galeria Domus, Rio de Janeiro
1975 Galeria Seta, São Paulo
1980 Desenhos e Gravuras, Museu
Victor Meirelles, Florianópolis
1985 Galeria Ars Artis, São Paulo
1998 Ilha ao Luar, MASC, Florianópolis,
e Galeria Pacifico, Buenos Aires
2004 Alma das Ruas, MASC,
Florianópolis
2006 Narrativas, Galeria Multipla
Principais Coletivas

1972 Arte Fantástica, Paço das Artes,
São Paulo
1974 Pinturas Fantásticas, Museu de Arte
do Paraná, Curitiba
1979/83 Panorama Atual de Arte Brasileira,
MAM, São Paulo
1984 Tradição e Ruptura, Fundação Bienal,
São Paulo
1985 Destaques da Arte Contemporânea
Brasileira, MAM, São Paulo
1985 O Surrealismo na Arte Brasileira,
Pinacoteca do Estado de São Paulo
1999 II Bienal de Artes Visuais do Mercosul -
Artista Convidado -, Porto Alegre

Reafirmando: um Humanista Singular

O pintor e poeta Rodrigo de Haro vive praticamente recolhido a seus lares e penates, em sua casa setecentista no alto do morro da ilha de Santa Catarina, região onde as bruxas são mais ativas. A ilha é, como se sabe, um território mágico, povoado por feitiçarias e mistérios, com os quais Rodrigo – uma personalidade rara, ao mesmo tempo solar, dionisíaca e afeita a ocultismos – mantém um comércio proveitoso. Lá ele pinta e poeta o tempo todo, mostrando apenas de vez em quando os resultados.

Conviver com Rodrigo é um prazer intenso, excitante e sempre renovado. Caracteriza-o, primeiro, a paixão com que mantém seus valores; o que não ama lhe é indiferente (castigo pior que o ódio). Segundo, a rapidez certeira com que muda de um alvo para outro, e vai das bruxas aos poemas de Kavafis, de San Juan de la Cruz ao Popol Vuh, a Santa Teresa de Ávila, às cartas do tarot. Ou às memórias de juventude, no Rio, e à convivência com Lúcio Cardoso, Alair Gomes, Jayme Maurício e o belo poeta que foi o português António Botto. Terceiro, caracteriza Rodrigo de Haro sua inteireza como homem e como artista, a correspondência que existe entre um e outro, e que faz com que sua obra seja como é e não pudesse ser de nenhum outro jeito: figurativa, colorida, gárrula, muitas vezes ambígua, inteiramente original, coisa raríssima numa arte cheia de diluidores e epígonos, como a que se faz no Brasil.

Fosse Rodrigo um pouquinho menos íntegro, poderia estar perfeitamente produzindo uma pintura mais na moda, como, por exemplo, grandes telas abstratas e cheias de matéria; obviamente, não lhe faltam nem imaginação nem recursos técnicos para tanto. Ou poderia estar escrevendo versos de pseudo-vanguarda e sendo aclamado nos suplementos literários. Mas não. Comporta-se como legítimo descendente daquele Cristóbal de Haro, a quem faz falar em um de seus poemas de Naufrágios:

"Tive oficinas de livros
em Sevilha e dedos
sutilíssimos
manchados de ácido, tive
alegorias e sonoras selvas, coisas
da monja arquiteta
que foi Inês da Cruz".

Rodrigo ama e é fidelíssimo a seus livros (os que lê e os que escreve), a suas alegorias, às luzes e obscuridades da sua selva, a suas coisas de monge e de arquiteto, e aos dedos manchados de tinta de sua(s) profissão(ões). É um pintor e poeta que se compraz com a precisão de seu artesanato, com o domínio de seu repertório eclético, com o métier, e com a mostra quase preciosista disso tudo. E, como outro Cristóbal de Haro, que também só pode ter sido seu ancestral, o que faz, em última instância, é "buscar nas Índias lívias pérolas": as da palavra e as da forma.

Quase preciosista? Pelo menos na pintura, sem dúvida. O lado dionisíaco da personalidade de Rodrigo faz dele um adepto de todos os prazeres, um exibicionista e um voyeur. Gozosamente evidencia sua ampla erudição, num clima de fin-de-siècle XIX e numa certa aura decadentista e refinada – como o perfume de rosas murchando, naquele poema de seu amigo António Botto.

Rodrigo ama ainda os elementos e climas da iconografia art nouveau e art déco e os componentes assumidamente ornamentais de sua pintura. Em sua arte há profusão de formas e cores e não disciplina e economia. A despeito de seus conhecimentos humanísticos e de sua admiração pelo que nos legou a antiguidade ocidental, ele não é, com certeza, um espírito clássico. Sua Weltanschauung, sua visão do mundo, e suas afinidades estilísticas o transformam, antes, num barroco.

Como amante de certa bizarria, ele não está, tampouco, preocupado com a beleza agradável, com o "bom gosto", com a adequação a normas institucionalizadas de equilíbrio e harmonia, que conhece absolutamente bem. Ser-lhe-ia fácil ser um filhote de Cézanne e de Braque – caminho certo para a elegância –, ou, como já disse, um eficientíssimo abstrato da moda; não lhe faltam os recursos para fazer uma pintura inteira e apenasmente escorreita. Mas não. Rodrigo quer instaurar sua pintura rodrigueana e inconfundível, sua beleza, em cujos domínios a elegância tradicional ficaria deslocada. Pois até o conceito de elegância de Rodrigo de Haro é o dele, requintado e consciente de seus próprios artifícios. É saboroso vê-lo passeando por sua ilha como um dandy, vestido quase como um francês dos anos 40 nas colônias, com um chapéu de palhinha que poderia ter saído do filme Casablanca.

Naturalmente, a especificidade desse mundo e da obra que nele se enraíza tem sido percebida há muito pela intelligentsia brasileira. Todos os críticos que escreveram sobre Rodrigo de Haro pinçaram algum aspecto pertinente de sua produção. Pietro Maria Bardi anotou, por exemplo, sua "simpatia por Utamaro" – o grande xilogravador japonês do século XVIII, mestre consumado da arte do Ukyio-ê, junto com Hokusai e Hiroshige. Quer dizer: o clima algo oriental que aparece desde algumas pinturas da década de 70 e chega até às atuais. A teatralidade na pintura, na maneira de dispor os elementos desta no espaço – traço essencial e caracteristicamente barroco – é outra constante na linguagem de Rodrigo. Dessa "iconografia altamente teatral" falou Jayme Maurício, o super-sensível crítico carioca, que, sempre capaz de ir mais fundo, chegou a detectar, no todo, "uma certa necessidade íntima de ocultar como que uma identificação com o demoníaco". Pode não ser verdade para toda a obra de Rodrigo – mas é verdade para uma parte substanciosa dela.

Instaura-se com isto um paradoxo especificamente rodrigueano. A sua é uma arte erudita e sem dúvida elaborada com a razão – e, no entanto, capaz de ser também, ao mesmo tempo, visceral, confessional, fundamentalmente catártica. Reflete seu mundo interior, "la noche oscura del alma" de que falava San Juan de la Cruz, seus valores, a discussão deles, certas angústias e considerações sobre o mundo exterior. Em várias fases, por mais gárrulos que sempre tenham sido, certos quadros não conseguiam esconder a gravidade de seu escopo. Para Rodrigo de Haro, pintura e poesia nunca foram um mero exercício do espírito. São instrumentos de sua homeostase, que lhe permitem permanecer são e vivo, na face do planeta.

Observação final: pasmem todos! Os parágrafos acima são a condensação (com ligeiras modificações) de um texto que escrevi em 1998 para o livro “Ilha ao Luar”, sobre Rodrigo de Haro. Fui relê-lo antes de escrever o que deveria ser a apresentação desta nova exposição. Pois bem. Tudo, absolutamente tudo que nele se afirma continua verdadeiro para o artista e sua pintura atual, e perfeitamente adequado para relembrá-lo ao público paulista. Não por preguiça, resolvi manter o texto antigo. É a maior prova da originalidade e coerência de Rodrigo de Haro, imbatível criador de um universo próprio.

Olívio Tavares de Araújo   

Mercenato: Engevix | Organizacão: Myrine Vlavianos | Fotos: Wladimir Nequesaurt Pereira Neto


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