UM AQUARELISTA ESSENCIAL

Como a grande maioria dos artistas, Ubirajara Ribeiro era, seguramente, um indivíduo angustiado. Tinha fases de problemas mentais, internava-se em casas de saúde, foi alcoólatra – vício do qual, depois, se libertou –, era ciclotímico, caprichoso, às vezes gentil, às vezes áspero, e até difícil. Nunca cortejou os poderosos, a crítica de arte, a imprensa. Não batalhou por uma “carreira”, no sentido habitual do termo: salões, prêmios, distinções, participação em grupos, badalação. Sua obra possuía, portanto, tudo para ser ensimesmada, autobiográfica e catártica, pondo à tona os demônios que certamente assombravam o autor. Uma obra densa e sombria, como a de um Francis Bacon, e, entre nós, muito da produção de Farnese e a última fase de Iberê Camargo.

Contudo – nunca se poderá explicar bem por quê –, Ubirajara fugiu inteiramente a esse modelo. Artistas como Bacon e Iberê jogavam para obra o surplus de drama e a escuridão que não conseguiam abrigar dentro de suas almas, exorcizando-os com esse movimento projetivo; sobreviviam psiquicamente porque dispunham dessa válvula de escape. Dir-se-ia que Ubirajara fez o contrário, colocando na obra a luz, a harmonia e a beleza a que almejava, e que não encontrava em seu cotidiano. Claro que obras como as de Bacon, Farnese e Iberê são extremamente belas, mas num sentido específico do termo, que convoca a noção de belo terrível, encontrável em desde um Mathias Grünewald, no final da Idade Média (cujo famoso Retábulo de Isenheim é um dos maiores cantos do sofrimento humano), até os mascarados e enforcados de James Ensor, passando pelos Desastres da Guerra, de Goya.

No caso de Ubirajara, estamos falando de beleza no sentido estrito e habitual, aquele conjunto de qualidades formais que os gregos foram os primeiros a elencar, e que para eles (e para toda a civilização ocidental, correntemente) residem no acerto, na ordem, na justa medida, na variedade dentro da unidade, no equilíbrio e até em um componente ético: kalós kai agathós , o belo é o bom. É dessa beleza que tratam as filosofias tradicionais, e é ela que nos proporciona aquele tipo de alegria sui generis denominada emoção estética, que, no âmbito da experiência humana, não pode ser traduzida para nenhum outro tipo de emoção. A trajetória de vida/arte de Ubirajara Ribeiro conduziu-o per aspera ad astra, e suas vivências dolorosas foram transubstanciadas em gratificantes, para nós que contemplamos o resultado dessa simbiose.

Escrevendo justamente sobre Ubirajara, há alguns anos, manifestei minha convicção de que esse tipo de beleza gratificante, fonte de um prazer não encucado, que se dá por si mesma e dispensa explicação, está fora de moda. Por um lado, isso corresponde legitimamente a uma crise de nossa época, instalada desde o último quarto do milênio passado. Coube sempre à arte, ao longo da história, refletir a relação do ser humano com o entorno, sua harmonia ou conflito com ele, seu otimismo ou pessimismo, suas conquistas ou derrotas. A uma crise sem precedentes na cultura – dentro da qual, como já anotava Max Scheler há quase um século, pela primeira vez o homem passou a saber que não mais sabia o que era –, a arte contemporânea respondeu com metáforas penosas, unhas, dentes, cabelos, vísceras à mostra. Por outro lado, essa linguagem tornou-se chave para o sucesso garantido, para o prestígio com curadores e bienais e para uma estratégia de ocupação de espaço (e até sucesso mercadológico) junto a alguns burgueses espantados. Não passa, nesse caso, de uma fórmula. Naturalmente Ubirajara não coube nem numa nem noutra variante. Falava de sua crise pessoal mais que da de seu (nosso) tempo; e em definitivo era um rebelde incapaz de servir a qualquer moda.

Sua opção – ou antes: sua necessidade de – beleza reaparece nesta exposição com grande brilho. Resulta ela de uma garimpagem nos guardados de Ubirajara, conservados desde sua morte em numerosas estantes, prateleiras e gavetas no velho e amplo sobrado em que ele vivia em São Paulo. Ao cabo de longas horas de exame, vistas bem umas duzentas e muitas ou trezentas obras, e de um reexame posterior, Gabriel Vlavianos e eu chegamos ao presente resumo, sem nenhum critério a priori que não o da reação sensível imediata. Não ousaríamos dizer que é uma seleção do que lá havia de ‘melhor’, já que, sabidamente, não existe um instrumento preciso para esse tipo de medida; outros olhos chegariam por força a outra proposta. A rigor é apenas o que mais nos tocou e seduziu, sem maiores complicações intelectuais – e com nível qualitativo evidente.

Acabaram predominando quase que inteiramente aquarelas. Também não resulta de nenhum projeto a priori. Ubirajara trabalhou em várias técnicas – em muito mais técnicas do que a média dos artistas de sua geração. Tinha um temperamento altamente investigativo, que o levou a experimentar todos os suportes, pigmentos, solventes, assim como a produção no plano (pintura, desenho, aquarela, gravura) e a produção de relevos e objetos tridimensionais. Em termos de quantidade, é certo que se dedicou sobretudo à aquarela e à pintura sobre tela. Numa determinada época, desenvolvendo à sua maneira as questões levantadas por, entre outros, Lucio Fontana (que com suas incisões investigava o outro lado, o verso, o avesso da tela), recusou-se à janela convencional do quadrado ou retângulo, modificando os formatos e trabalhando a moldura, que transformou num elemento significativo a mais da obra. Nunca foi, porém, um escultor, nem mesmo um produtor de típicos tableaux-objets, já que escultura e objeto não se definem apenas pela tridimensionalidade mas também por um “clima”, um tipo de abordagem.

A esta altura, porém, parece-me assentado que o mais sensível e o mais significativo em sua produção – o que no final o distinguirá no panorama da arte brasileira – é a produção sobre papel. Mesmo quando pintava ou incursionava em outras técnicas, Ubirajara conservava-se sobretudo um artista gráfico, pela sutileza, pelo intimismo, pela universo muito pessoal de fantasias tratadas sotto voce, quase que em solilóquio, falando mais para si mesmo, sem ceder a efeitos, sem querer impressionar. E dentro da produção em papel impõe-se a aquarela, tanto pela qualidade alcançada (Ubirajara foi o que se poderia chamar de um aquarelista “essencial”, expressando-se cabalmente através dessa técnica) quanto pelo fato de que ele formou gerações de aquarelistas.

Sabem todos que tecnicamente a aquarela é muito exigente. Seu acerto e/ou seu erro dependem do élan, do impulso que gera o gesto e a mancha de cor sobre o branco do papel; não se pode corrigi-la, não se pode consertá-la. O verdadeiro aquarelista se caracterizará sempre pela espontânea captação de seu tema (seja ele figurativo ou abstrato) e por sua dose de imediata e fluente poesia. De golpe, não me ocorrem muitos grandes aquarelistas essenciais no modernismo brasileiro: Ismael Nery, sem dúvida; o primeiro Cícero Dias (que no começo dos anos 1930 perpassa o surrealismo); o inigualável Thomaz Ianelli, mestre certo do gênero. E, é claro – como nesta bela exposição fica patente –, nosso saudoso Ubirajara Ribeiro. Nada mau, ficar assim, de imediato, como um dos quatro.

Olívio Tavares de Araújo   


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