Um ponto de vista para os pontos de fuga...
A descrição não poderia se reportar à natureza do espaço, à figuração e temporalidade de uma produção marcada por um investimento deliberado no que extrapola a plasticidade pura. É inútil descrever, mesmo com um manancial enorme de adjetivos, a luz da manhã quando percebemos que é a da tarde, um parque que pelas dimensões só pode ser um jardim, uma mulher que de um determinado ângulo é parte da casa ou a própria casa. Não há, tampouco, razão para se tomar uma obra a partir de preceitos modernistas, se ela não se fundamenta em uma autocrítica, mas, pelo contrário, em uma enunciação visual em primeira pessoa que multiplica as narrativas potenciais de cada imagem.
Esta é uma história difícil que teria de traduzir a vida de alguém que é capaz de parar, de repente, e flagra-se interpelando a si próprio sobre sua paixão pela figura para, em seguida, reconhecendo-se como tal, principiar um descaminho cíclico: o arquiteto que abandona a instituição para re-desenhar espaços pré-existentes em novas condições espaciais; o pintor que, de início, subestima uma capacidade técnica evidente que o permite sustentar uma infinidade de configurações na tela; um artesão que desafia com falsa modéstia o ready made nosso de cada dia e, de novo, o arquiteto que poderia ter concentrado sua produção integral em objetos destemidos que, já nos anos 60, formavam uma matriz para parcela significativa da produção contemporânea nacional. Qualquer justificativa, aqui, teria que partir de um lugar remoto e pretensioso, para não dizer ridículo: o ponto de vista crítico que unificasse tantos pontos de fuga.
Ainda assim, vale lembrar o óbvio: se há uma tenção histórica na arte moderna ela diz respeito à busca pela supressão da narratividade. E, no caso de Baravelli, isso começa a operar quando atravessamos a porta de seu estúdio que é, por si só, uma macro-narrativa que estabelece analogias permanentes com o que o artista produz ali. Encontram-se patamares diversos com fases e especialidades distintas da produção, num lugar ligado à residência e a um exterior que não poderia ser mais pitoresco e recorrente. No mezanino, obras embaladas num limbo cortado por hastes pretas que se contrapõem à estrutura do telhado, uma base invertida para qualquer raciocínio construtivo. Lá em cima também, cercada por livros e algumas obras em papel, essa grande tela, Pintura para Crianças, de 1975. Não se consegue parar de vê-la como uma realização dos melhores intuitos da pós-modernidade que, se parece não existir mais no meio teórico, subsiste ali, isolada, com tal singeleza que leva à conclusão natural de que o discurso predominante da crítica faz vistas grossas ou fecha os olhos para precursores absolutos.
Enfim, pode parecer pouco dizer agora, depois desse preâmbulo um tanto hagiográfico, que esses múltiplos recentes de Baravelli são sintéticos. São, no sentido de fundirem a idéia de projeto com a paixão declarada pela figura e pela arquitetura, entre outros motivos. Lembrando que fez exposições inteiras dedicadas a uma figura em particular, em grandes formatos, é possível considerar que no espaço mais restrito e orientado pela possibilidade de serialização, o artista tenha tido que concentrar o repertório de materiais, as possibilidades cromáticas, o feminino e o masculino em gestos rápidos, anotados no ar. Nesse momento, temos um interlúdio, Humoresque, em que, como no circo de Calder, o sujeito se permite brincar com seus números consagrados com a audácia temperada de quem já conquistou o público e a si mesmo pela lógica desinteressada do jogo, a habilidade indisputável do mágico. Paralelamente, como se esse espírito lúdico estivesse sobrando, aplica-o também ao tema severo das naturezas mortas que trazem um tom anti-morandiano. Nelas, a pintura emancipa a toalha de mesa e suas cores desregradas e consome o suporte, transformando-o num tabuleiro anarquista.
Pouco antes de terminar a visita, depois de mais uma olhada nas imagens fixadas sobre a pia, encontra-se um cartaz xerocado com a foto enegrecida de um poodle desaparecido nas imediações, por quem, como explica o texto abaixo, uma criança padece. Imagina-se o animal ainda perdido, mais sujo, e observando melhor pode-se chegar à conclusão de que não é nada engraçado, mas medonho o seu destino. Ao olhar ao redor, no entanto, compreende-se que para Baravelli o cão foi encontrado. Por ele mesmo. Estaria ali no estúdio, abanando o rabo de satisfação porque, ao seu lado, já foi posta a mesa do café da manhã, do almoço ou jantar...
Rafael Vogt Maia Rosa, agosto de 2004